segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

a contemporaneidade tem,

final, coisas irresistíveis.  não é que o google, por estes dias, foi o primeiríssimo a dar-me os parabéns? disse, em bolos e velas como cenário, assim: Parabéns, Olinda! adorei, o google é sexy.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

por entre tempestades
e manhãs claras
só as árvores resistem
não são elas
o oposto
compreensão
força incansável
beleza em arrepio
que crescem de cima para baixo?

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

civismo não há

Ontem chorei

Civismo não há. Ontem chorei muito e não dormi a noite toda. Ela também não. Depois de jantar fomos dar o passeio, a volta do costume. mas ontem não foi uma noite normal. Os dois cães enormes soltaram-se e vieram em direcção a nós. As duas, parecidas em tanta coisa mas imensamente no que se refere ao acolhimento, sorrimos - eu em um olá prolongado e ela abanando o rabo de pêlo farto e solto. Veio o primeiro e abocanhou-a; veio o segundo abocanhar também. Estávamos as duas sozinhas na solidão do medo e do desespero.

Onde está o civismo?

Porque faz parte do civismo a entreajuda, aquela coisa que supostamente é inerente à condição de ser humano, estávamos e ali ficámos sozinhas por dentro do medo partilhado. Os carros que passavam foram parando com os meus gritos - mas ninguém saiu para me ajudar; havia transeuntes na rua, era cedo, mas ninguém se aproximou; havia apenas o céu imenso que me acolheu na sua escuridão e o eco da nossa aflição que parecia, e foi, mudo para o mundo.

O zelo pelo progresso da pátria também passa pela entreajuda

Ajudar - tão simples e tão miseravelmente omisso na Cidade. Perante uma chacina prestes a acontecer, dela e minha, descobri o flagelo da falta de civismo. A covardia das pessoas assusta - assusta quase tanto quanto os dentes afiados de dois cães gigantes a abocanhar uma cadela peluda e doce; a falta de civismo morde e rasga quase tanto como dois cães raivosos com o mundo.

Serão os cães raivosos o reflexo da falta de civismo?

A aproximação da raiva perante duas inocentes é em tudo semelhante ao afastamento das pessoas perante uma chacina em potência: liga-as o desprezo pela vida; liga-as a miséria do não se ser; liga-as a omissão perante a dor e o desespero; liga-as a irresponsabilidade fanática da inconsciência; liga-as o nojo atroz pela solidariedade e entreajuda.

Ela-eu, tu: afinal não somos iguais

Amanheceu e há susto. Amanheceu e há medo. Amanheceu e há tristeza. Amanheceu e há a certeza de que o civismo anda moribundo. Amanheceu e a certeza continua de que aquelas pessoas tiveram um sono tranquilo, uma noite descansada. Amanheceu e até a manhã gelada acredita no gelo delas, na indignidade que é o mau carácter de não se dar a mão nem a palavra a alguém. Amanheceu e o país está cada vez mais pobre: são cada vez menos os que zelam, valentia e coragem, pelo progresso da pátria. Amanheceu e eu continuo a chorar pelo que escasseia, pelo que não há. Amanheceu e ela está enroscada na sua vergonha de ter sido abocanhada por dois cães raivosos. Amanheceu e a tristeza, é a tristeza e a vergonha, cobre-se de civismo - do civismo que os que se têm como gente não têm.
Definitivamente: miseráveis covardes.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

alfabeto de kama

sutra! qu' aqui não há discriminação sexual de género.

pode ser fácil o difícil de entender


crescemos todos a ver, na televisão ou jornais e revistas, mulheres despidas a patrocinarem marcas. a mulher é um bicho belo que serve para ser apreciado - tal e qual como se passa no zoo. mais: a mulher é um bicho belo que ganha dinheiro ao ser apreciada. por que razão haveria de se importar com isso? a instrumentalização do corpo, feminino em particular, deve dar em estudos psicológicos - mas também sociológicos - interessantes e o impacto da ridicularização aquando da inversão da tal instrumentalização é grande: dá vontade de gritar não faças isso!, sai daí!, e mais do que riso provoca alguma pena. parece humilhação. e é: uma pronografia mascarada, sexução em vez de sedução. porque a sedução, ao contrário do que diz o dicionário, os dicionários também se deixam corromper pelos linguistas, os linguistas também podem sofrer de desvios no seu imaginário individual, existirá desvio na imaginação? se a considerarmos um paralelo real da realidade?, no dicionário fala em corromper e também em fascinar, haverá fascínio por e aos pedaços? não creio - e por isso creio tratar-se antes de sexução. mas adiante. este tipo de publicidade acentua fortemente uma espécie de atraso mental no público masculino, falo obviamente na que instrumentaliza corpos femininos, já que pressupõe que , por exemplo, uma gaja nua com cabeça de ferrari estimulará a compra do ferrari pelas curvas da mesma. isto no meu campo de hipóteses, já que a estar comprovado que sim, serei obrigada a concluir que os homens terão mesmo um atraso mental. ou então que o estímulo à dominação e subserviência tem um impacto positivo, de tão negativo, na violência doméstica ou nas violações. não acredito nisso a não ser, claro, partindo de um outro pressuposto: há mais homens bem do que mal formados. estou enganada? talvez, estarei a raciocinar a uma escala muito ampla que é o mundo - o que me faz acreditar na grandeza. e aquele miúdo de treze anos que violou a irmã por querer imitar a pornografia de um jogo? pois. um adolescente não é um homem (e não leste o Gonzalez quando diz que os homens são bebés?) e um homem que quer comprar um ferrari por causa de um corpo de vagina nu não é inteligente. vá, são excepções e a publicidade quer excepções - até porque só as excepções compram ferraris. OK? não precisas de gritar só porque teimo em generalizar. ficamos assim. ficamos a entender que serão mal entendidos os que trabalham para entender as massas e os que não entendem por serem diminuídos.

interessante

cores com formas ou cores e formas ou percepção das cores através de tecnologia. aqui.

e a banda sonora que escolho é...


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

urgência

serei sortuda, talvez, por nunca ter lidado com esta miséria. mas ingénua sou certamente por nem sequer ter imaginado o quanto o mundo é miserável, entre todos, com alguns. e é por isso que ler e reler aquele texto faz chorar. mas também sorrir - por nunca ser demais entender. obrigada, Isabel.

a beleza por detrás da ausência de ovários e de testículos

por tudo ficar por viver. aqui.

escultura com modelo vivo

há um par de anos tirei um curso, visual merchandising, com este artista e recomendo vivamente qualquer arte com ele na galeria, que é também a sua casa, dele. agora chegou a vez da escultura com modelo vivo.

estás à espera do quê para ires espreitar o site?

juanar

podia bem ser o olhar rasgado. ou o corpo definido. ou o improviso nos passos. ou o sorriso brilhante. ou o jeito delicadamente grosso. ou a pronúncia bagaceira. podia bem ser isso tudo que faz com que o Juan seja o melhor professor de Zumba do mundo - mas não é. o Juan cativa com a alegria que é dar alegria; com a atenção que dedica a cada aluna; com o bom humor que transpira e também pela sensualidade que desperta. por isto tudo e muito mais, já merece abrir um espaço só dele. e se não merecesse aconteceria na mesma: ele disse-me. fiquem a aguardar que logo, logo, vão saber onde fica. agucem esses sentidos que o Juanito vai aumentar.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

popar


um coiso que fecunda sem ter sido fecundado

mata-me ou ama-me sempre é sempre a outra voz. há quem tenha duas ou três, outros sete ou oito - nove ou dez. há quem tenha vozes, transpira mais, espalhadas pelos poros. (deve ser por isso, aliás, que correr ou dançar ou saltar estimula tanto a criatividade: mal se deita o descanso levanta-se o coiso criativo. o coiso, sim, aquilo que fecunda sem ter sido fecundado.) talvez a criatividade se esconda nos sovacos, em alguns casos, ou nos pêlos encravados dos rapados - é aqui, precisamente aqui, que mata-me ou ama-me poderá ser uma voz criativa porque de outra forma, sim, de outra forma, não pode haver o ou: matar por amor não é matar o amor, é matar o amado. e amar o morto não é amar o amado mas o amor. estarei perdida? não: o amor é energia vital e, por isso, criatividade (é por isso que o amor só se vê quando se deita o sexo a descansar). quando se pensa muito em morrer, ou matar, é porque já se está morto. o ressuscitar sim, já mete coiso criativo - o ressuscitar não é recuperar a vida depois de se morrer mas evitar aquele segundo, mais segundo do que minuto, derradeiro para a morte. é como quando as mulheres têm de virar à direita mas dão o pisca para a esquerda e já em cima do entroncamento conseguem a direita pretendida. isto é ressuscitar, o tal coiso que fecundou sem ter sido fecundado. é que depois de ter conseguido esta vitória, energia vital completamente potenciada, a mulher sente-se capaz de dar dez voltas a uma rotunda. o que tem isto de criativo? muito: durante essas dez voltas, há uma impressora mental que funciona e podem estar certos: quando uma mulher, uma mulher a sério, imprime coisas - o passo seguinte é arregaçar as mangas e fazê-las. ou pelo menos tentar até ao próximo segundo, mais segundo do que minuto, derradeiro para a morte. olha como tentar é criativo. olha o paradoxo: tentativa falhada é criatividade consumada.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

agora é que tenho a certeza

:afinal sou uma santa.

muscular o cérebro ou vai-te foder nelinha



parece estar regulamentado nas cabeças. nunca percebi, não percebo nem hei-de alguma vez perceber, a coisa de os corpos gordos ou alegadamente feios inibirem de alguma forma as capacidades, os talentos, os sucessos ou os fracassos. vem isto a propósito da morte daquele actor maravilhoso que, dizem, apesar de gordo, vingava na grande tela. em uma sociedade cada vez mais industrializada ao nível mental, ideias em série de metodologia standardizada barbie-ken, perfeição plástica e  sempre em vias de polimerização, urge mesmo estourar com o preconceito de que a beleza é um conceito objectivo e universal, isto por um lado, e de que esse conceito objectivo condiciona as experiências pessoais e profissionais por outro. bem visto, tratar-se-á de muscular o cérebro e, exercícios permanentes aeróbicos, de oxigenar os pensamentos que se reflectem em palavras, atitudes ou omissões. este é um dos grandes desafios dos séculos vinte e vinte e um.

porque as pessoas são inteiras e a carne, que é a parte visível da alma, faz parte do todo. enquanto as pessoas que se dizem pessoas não entenderem isto, não entendem nada e serão sempre anorécticas de espírito. tenho dito. há quem diga de outra forma, mais obesa, aos tristes, do género: vai-te foder, nelinha.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

empapado e enrojoado, aleluia!

decidiram entronizar um padre confrade de honra por ter contribuído durante quarenta anos para a divulgação das papas de sarrabulho e dos rojões de uma freguesia, a par dos trabalhos na paróquia. há mais de trinta anos, este mesmo padre, recusou-se a fazer o funeral de uma mulher e mãe de quatro filhos apenas porque ela não teria colocado os filhos na catequese para fazerem a comunhão com as lengalengas da igreja católica - não teve, portanto, papas na língua e manteve o rojão, o dele, bem sectário e desumano. a história, com um jeitinho, vai acabar assim: o padre, agora ainda mais podre das ideias por conta de a podridão do corpo ser bem solidária, ao ser aclamado confrade vai comer uma tigela de papas e arrotar de satisfação azeda. após um quarto de hora, sensação de vazio no estomago, sangue do porco a obstruir-lhe a vida, mete um rojãozinho na boca de lavagem e a justiça divina acontece: nem para dentro nem para fora, olhos arregalados de pânico, no meio da festa quando estão todos a olhar para o prato, esgar de aflito, nem sequer consegue bramir e só dão conta dele quando os resquícios finos da flatulência instalada, janelas que se fecham pela chuva grossa, dobrarem o ar. se houver justiça divina é isso que vai acontecer: padre confrade de honra bate a caçoleta empapado e enrojoado da goela até ao fundo. no fundo, aleluia!, foi uma morte cheia de abundância - dirão -, uma honra.