terça-feira, 30 de abril de 2013

amo-te, foda-se!

poderia bem ser o nome de um restaurante ou de um perfume ou, mais amiúde comum, de um livro - mas não é. trata-se de uma forma de expressão, a minha forma de expressão, a melhor que consigo arranjar, para dizer o quanto amo, oralidade e escrita, a língua portuguesa. e nisto cabem as palavras, as palavrinhas e os palavrões, todas filhas dela - da língua. trata-se de uma aproximação metafórica, riquíssima, assim como o Miguel Esteves Cardoso explica e usa e abusa. mais: usar oportunamente o calão será a foma mais digna de calar o bicho da expressão, linguagem cristalina que pouco tem de grosseira a não ser a quem não lhe chega à espinha dorsal. a alma precisa tanto de palavras como de palavrinhas e de palavrões - são uma espécie de momentos SPA (sim, neste caso também é possível dar para a sociedade portuguesa de autores que, de resto, diga-se, altamente elitista e viciada comó caralho), um resort luxuoso onde a palavra faz massagem e a palavrinha sauna e o palavrão talassoterapia em sessão. é, pois, inútil que tentem travar o palavrão quando não pretende designar verdadeiramente a substância da coisa  - estás a cagar para mim é a imagem mais perfeita que há para dizer que alguém não está a prestar atenção a outra; estás a foder-me a cabeça é a forma mais transparente de referir que alguém está incomodar fortemente outra; estragaste-me a puta da vida é a frase mais feliz que encontro para gritar o que este governo fez (...) - mas, antes, a coisa com substância.

por mim, está decidido: amo-te, foda-se!, palavrão, como, não em arma de arremesso, quando o estômago tem fome e precisa forrar-se com pão.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

empoar

nem sempre o tempo muda as pessoas - na maioria das vezes são as pessoas que mudam o que querem fazer com o tempo. e o tempo tantas vezes deve pensar, em riso miudinho, assim: vou -t'empoar.

domingo, 28 de abril de 2013

a cor da musica

se cada música tivesse um rosto, e tem, seriam, e são, os dedos a dar-lhe cor.






Paul Gauguin, Siesta, 1894

sexta-feira, 26 de abril de 2013

a verdadeira arca de nu. é?



My Dream, 1947, Foujita Tsugouharu 

o escuro estava deserto e terá partido para lugar incerto no dia em que o mundo acabou. restou a luz, despida e omitida de vacilar. chegou e espreguiçou a calma, sossegou o olhar e refastelou-se no sentir enquanto, magistosos, os outros procuravam - cobrindo-a - cobrir-se. terá masturbado a esperança, diz-se, e apimentado o riso em concerto das suas vozes tão diferentes, vozes que falam pelos olhos e respiram pela sabedoria, e iguais. decidiu prolongar a luz adormecendo como quem carrega um punhado de areia entre os dedos que nada querem segurar e assim ficou, obdurada de sonho, a aguardar uma história que começasse: foram muitas, imensas, vezes.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

plutão é um estado de alma




ler aqui. ficamos a pensar na importância do mundo e do submundo; ficamos a pensar, e dizemos o que pensamos, que plutões há muitos carregados de importância relativa e que a liberdade é o maior planeta, importância absoluta, estado de ser, do mundo.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

velha



parece-me muito bem que o estrangeirismo vintage seja por cá uma velharia - velharia tem cheiro forte e a azeite verde, textura vincada que só apetece manter. e um dia ainda vou ter novamente espaço para poder ser velha, lambuzar-me toda pelos olhos e pelas mãos, à vontade.


Mec'Leituras

uma rica sugestão que vem dar consistência a isto.

terça-feira, 23 de abril de 2013

truclas

claro está que fiquei apaixonada por este texto do Pedro Bidarra.

(agora fiquei a pensar se quando nos apaixonamos, porque não conhecemos tudo o que quer dizer que sabemos pouco mas o suficiente para nos fixarmos, estaremos semi-apaixonados ou apaixonadíssimos em potência - visto que saber mais e mais vem depois. vou pensar.)

mas que nada




a camélia cor-de-rosa



The Pink Camellia - Pierre-Georges Jeanniot (1897)

o livro estava em branco. pálidas eram as folhas quando se sentou, cedinho pela manhã, no sofá dos berloques, coberto de branca manta por o seu corpo assim exigir, e logo se predispôs a deitar-se no sorriso descontido das almofadas que reclamavam o aconchego do branco. isto, claro, depois de enrolar o fino e comprido naco de pelo em jeito de picho e colocá-la bem lá no alto, como se quisesse - e quis - dar um salto, a camélia carregadamente rosada, mais uma, que todos os dias colhia fresca para viver.

e hoje era o dia de se ler de amores. logo na primeira página o livro leu-a, e por isso escreveu-a, assim: nas pernas abertas do teu olhar secam-se os rios que por ti passam. mas não desistas de amar - antes não insistas no seu jorrar. e ali ficou. parada naquela primeira página do, literalmente, seu livro. sorriu enquanto absorvia, enquanto se absorvia. desviou um pouco mais a coxa obediente por debaixo da maciez do cetim e adormeceu. agora sim, podia passar para a segunda página mal voltasse a nascer depois daquela pequena morte tranquila e feliz.

domingo, 21 de abril de 2013

um drama que cabe em tudo

o mais descarnado drama com que um ser humano pode ser confrontado: o de não saber como expor a verdade à cegueira institucional do universo humano.

atreves-te a compor a música para a canção do Passismo?


nossa passagem estreita
nossa paisagem borrada
nosso sonho esmagado
a nossa casa perdida
a nossa fé esmurrada
nosso sangue roubado

e agora, e agora, onde vamos respirar?
 (arfar, arfar, a esperança está a arfar)

dias a passos, viver de frete
contas a monte
jornal na retrete
passagem desfeita
paisagem perdida
sonho roubado

e agora, e agora, onde está a vida?
 (arfar, arfar, a esperança está a arfar)

amoras na mira
ossos mirrados
a coragem suspira
abismo à espreita
sol roubado
ventos de direita

e agora, e agora, quem refaz a cama onde o povo se deita?
 (arfar, arfar, a esperança está a arfar)

fel no sono
azedo acordar
andarilhos, socalcos
um pesar o deitar
andaimes travados
altura qu'encurta
sobressalto qu'enfeita
queda que perdura

e agora, e agora, onde pára a fartura?
 (arfar, arfar, a esperança está a arfar)

sábado, 20 de abril de 2013

bem-vindo

o meu querido sobrinho e este dizer da Rita picaram-me a opinião e decidi reabrir, e actualizar, a minha conta no FB. é assim.

Pedro Passos Coelho: "Tenho felizmente namorado com a minha mulher”


um político deve ser um humanista secular detentor de técnicas e saberes, o tal coiso nomotético, utilizados com o objectivo de  aliviar, senão minimizar na impossibilidade de impedir, o sofrimento humano. e é com a mulher que Pedro Passos Coelho faz esquissos, partindo da idiografia sexual, daquilo que é politicar:

i) o simples beijo nos lábios, vulgo chocho, quer dizer isto:


  • redução progressiva dos salários da Administração Pública, institutos públicos e órgãos de soberania, para valores totais de remunerações acima de 1500 euros por mês, com consequente redução de 5% nas remunerações (3,5% para salários entre 1500 e 2000 euros, 10% para os salários mais elevados);
  • congelamento das promoções e progressões na Função Pública;
  • congelamento de admissões e redução do número de contratados (já em 2010);
  • redução das ajudas de custo, horas extraordinárias e acumulação de funções, incluindo a acumulação de vencimentos públicos com pensões do sistema público de aposentação (já em 2010);
  • redução em 20% das despesas com a frota automóvel do Estado;
ii) as mãos a roçarem, ora ao de leve ora com gana, a pele ditam assim:

  • congelamento das pensões em 2011;
  • redução em 20% nas despesas com o Rendimento Social de Inserção;
  • eliminação do aumento extraordinário de 25% do abono de família nos 1.º e 2.º escalões e eliminação dos 4.º e 5.º escalões desta prestação (já em 2010 para 4º e 5º escalão);
  • redução dos encargos da ADSE;
  • redução das despesas no âmbito do Serviço Nacional de Saúde;
  • redução das transferências do Estado para outros sub-sectores da Administração;
  • redução das despesas no âmbito do PIDDAC;
  • redução das despesas com indemnizações compensatórias e subsídios às empresas;
  • extinção/fusão de organismos da Administração Pública directa e indirecta;
  • implementação de um plano de reorganização e racionalização do SEE;
iii) o sexo, já erecto - ou seja, com uma tromba do caraças -, tem a seguinte narrativa:

  • alteração do sistema de deduções e de benefícios fiscais no âmbito do IRS;
  • revisão dos benefícios fiscais para pessoas coletivas;
  • convergência da tributação dos rendimentos da categoria H com o regime de tributação da categoria A;
  • aumento de 2 p.p. da taxa normal de IVA;
  • revisão das tabelas anexas ao Código do IVA;
  • imposição de uma contribuição ao sistema financeiro em linha com a iniciativa em curso na UE;
iiii) já ao rubro, em movimentos crescentes de penetração, conta-lhe uma história:

já depois de Portugal estar sob intervenção externa, o Governo de Pedro Passos Coelho decide tomar novas medidas para cumprir a meta do défice em 2011.
  • a 30 de Junho de 2011, o primeiro-ministro quebra a promessa eleitoral de não aumentar impostos e anuncia, no Parlamento, um imposto extraordinário sobre os rendimentos -equivalente a 50% do subsídio de Natal;
  • a 1 de Agosto de 2011, aumenta o preço dos transportes públicos – em média, 15% nos títulos dos transportes rodoviários urbanos de Lisboa e do Porto, transportes ferroviários até 50 quilómetros e transportes fluviais;
  • o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, anuncia, a 31 de Agosto, novas medidas fiscais para penalizar os contribuintes de rendimentos mais elevados;
  • a 1 de Outubro, aumenta o IVA sobre o gás e a electricidade. o custo mensal sobe de 6% para 23%;
  • ainda no mesmo mês, Passos Coelho anuncia o corte dos subsídios de férias e Natal aos funcionários públicos e pensionistas com vencimento superior a mil euros, durante a vigência do programa da troika;
  • a 20 de Novembro de 2011, o Parlamento aprova o aumento para 25% das taxas liberatórias sobre os juros, dividendos e mais-valias mobiliárias, em sede de IRS e IRC;
  • já em 2012, a entrada em vigor do novo orçamento impõe um conjunto de novas medidas. as despesas de saúde passam a ser dedutíveis em sede de IRS apenas em 10%. As despesas com a habitação são dedutíveis, não em 30% do seu valor, mas em 15%;
  • o Governo reestrutura e “racionaliza” as listas de bens e serviços sujeitos a IVA e destina a taxa intermédia de 13% a sectores que Pedro Passos Coelho classifica de “cruciais” para a produção nacional. A água engarrafada aumenta para 13% e os refrigerantes passaram a estar sujeitos à taxa de 23%, tal como a restauração. o Governo não mexeu nas taxas dos néctares de fruta, do vinho e do leite achocolatado;
  • o preço da electricidade volta a aumentar, sofrendo um incremento de 4% no custo mensal;
  • o imposto sobre veículos (ISV) para os automóveis ligeiros de passageiros sofre um aumento médio de 6,4% em 2012;
  • o Imposto Municipal sobre Imóveis sofre um agravamento de 0,1% no caso das habitações reavaliadas ou transaccionadas desde 2004. a taxa mínima passa para os 0,5% e a máxima para 0,8%;
  • o imposto sobre os cigarros sobe de 45% para 50%. a taxa aplicada a cigarrilhas e charutos aumenta de 13% para 15%, enquanto a do tabaco de enrolar passa de 60% para 61,4%;
  • a 1 de Fevereiro, os preços dos transportes públicos voltam a aumentar, com uma subida média de 5% (a alteração abrange os utentes dos comboios da CP, dos autocarros da Carris e da STCP, da Metro de Lisboa e da Metro do Porto);
  • Vítor Gaspar anuncia, a 30 de Abril, que o Governo prevê que os subsídios de férias e Natal, cujo pagamento foi suspenso, comecem a ser repostos a partir de 2015, a um ritmo de 25% por ano. em Julho, o Tribunal Constitucional declara a inconstitucionalidade da suspensão dos subsídios de férias e Natal, por violar o princípio da igualdade, mas o acórdão só tem efeitos em 2013;
  • esta decisão foi a razão central que levou o primeiro-ministro anunciar, nesta sexta-feira, um aumento na contribuição de todos os trabalhadores para a Segurança Social.

iiiii) sexos em brasa, meditação em curso, ausência total de ser, o orgasmo:

Pedro Passos Coelho, como grande e bronco homem que é, adormece imediatamente. explica, mais tarde, à mulher que o que sucede nada tem que ver com afectos - trata-se, antes, de uma falácia para ganhar tempo: o tempo de esquecer de lembrar que se vem à custa de um desgoverno. e a mulher pensa para si que, não tarda, acabará por preferir outro se ele não se puser a andar.



sexta-feira, 19 de abril de 2013

os Beatles e o sabonete



perdoem-me os fãs mas nunca gostei, não gosto, e tenho quase a certeza que não virei a gostar. é aquela espécie de música que cheira a sabonete - não arranha de forma alguma, pelo menos a minha, a alma. bem sei que a música dos Beatles agitou o mundo com ideais progressistas e incitou a revoluções sociais e culturais mas, lamento, não me entra no goto. tem vezes que se por mero acaso os ouço até me irritam. é tudo muito certinho e direitinho à excepção, claro, talvez, das unhas mal cortadas dos pés do Paul McCartney e do desnível dos dentes do maxilar inferior do Lennon. o quê, estou parva e a inventar? por favor, deixem-me pôr os gajos com um trago de beleza já que o cheiro do sabonete seca-me os ouvidos.

perenes



ter a coragem de arrancar uma árvore, uma árvore de camélias, de um jardim, é uma indecência. perder, deliberadamente, de vista a flor que nasce nas axilas das folhas lustrosas, a flor que não tem cheiro - precisamente para lhe inventarmos o sabor - é crime. a camélia é inspiradora, uma musa. e quem acha que as musas são para usar e deitar fora, para arrancar pelas raízes, engana-se: as musas são para apreciar e tratar bem, desfrutar. porque quando menos se espera elas perfumam cada recanto e misturam-se, uma espécie de creme, na pele. as musas não são casuais: as musas, flores férteis, são perenes.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

antes, o mundo era de pombas e mamona




antigamente, em outras primaveras, as pombas - gosto de pensar que eram pombas e não pombos pelo cariz intuitivo da coisa - levavam as cartas de papel fininho em um tubo amarradas a um pé. e, pelos céus, carregavam as boas e as más novas. naquela altura, o centro de triagem postal situava-se mesmo ali no jardim ao lado do pão ainda quente e da merda do cão. uma delícia. e a ninguém passava pela cabeça mandar a pomba levar veneno a quem quer que fosse - metia-se estricnina na sopa de um vizinho ou familiar próximo -, antes eram as pombas que cagavam, d'alto, nos chapéus. a globalização, imagine-se, veio fazer dos venenos armas bioterroristas e até já querem chegar a um senador dos EUA.

pois é, estou desolada, o mundo já não é das pombas e nem o óleo de mamona, rícino, é utilizado para provocar os partos.


quarta-feira, 17 de abril de 2013

caminhos com pedras e cabras


a alma do mundo e tu. faz um clister.

imagino o mundo personificado como se olhos de blimunda tivesse. o mundo é homem ou, pelo menos, assume-se com as características-padrão do que é ser homem: o mundo caminha em linha recta - linha que ele mesmo traçou e desdenha dos ziguezagues dos passos de mulher; o mundo intoxica-se com as conversas dos outros que ouve aqui e acolá - se o mundo fosse mulher usaria gavetas cor de rosa, tantas quanto coubessem no armário e ainda sobrepunha algumas para arrumar as ideias; o mundo não se permite ser emocional - amarra-se na razão para sobreviver; o mundo acolhe as dores sem verter uma única lágrima - confunde tristeza com fraqueza e é mesmo incapaz de dar de mamar. mas também é incapaz de fingir, o mundo, aquilo que é é o que se vê. e depois soltam-se bombas nas palavras e, tarde demais, palavras a quererem perceber as bombas. e depois a fome e a miséria e a doença gritam por colo que ele, esgotado, não dá. e depois os patrões do mundo trabalham-lhe o ego e, cabeça encapuzada, o mundo segue cabisbaixo, murcho, como alma ferida depois de um ralhete. e adoece, falta-lhe força, e de força padece.

é bem simples o que vê o feminino olhar: a alma do mundo, a alma gigante do mundo é feita de todas as almas que o habitam, está doente, tem uma espécie de nuvem imensa e grotesca e grotesca e imensamente negra a rondar-lhe por cima. e urge cuidar e purgar e limpar. eu proponho um clister colectivo: cada um por si.

terça-feira, 16 de abril de 2013

perguntinhas à lei seca destinada aos adolescentes



ó lei, tu que andas de justiça vestida e ordem pintada e, já agora, de amarela encardida, diz-me: andarão os adolescentes a mostrar - por livre, ou exigida, vontade - o  cartão de cidadão nos locais de venda e consumo? é que, como sabes, lei, nos tempos que correm é difícil perceber, boca cerrada no falar, a idade na idade da bandidagem. e o lucro, lei, acaso achas que são os adultos - a quem já custa ganhar a vida (obviamente que depois há os outros que apreciam viver à pala dos pais) - que desbundam as madrugadas e auroras nos shots? mau-mau Maria-Lei qu'andas seca e a ressacar por mais.

pequenos grandes milagres

o verdadeiro milagre é aquele que acontece, quando nascemos de novo, pela manhã: aquele sorriso gostoso e gratuito; uma troca de palavras de tenha um bom dia; uma bela de uma boa disposição contagiante. sim, porque os milagres não são para qualquer um: o que mais há por aí é gente carrancuda, cabeças cheias de tensão - e tesão - por descarregar como se a tensão, e o tesão, pertencessem aos intestinos. sim: há gente que, logo pela manhã, dá, só sabe dar, como única expressão de vida, um valente peido. e os peidos, lamentavelmente, a todo o gás, não são milagres - a não ser para tem tem a doença crohn.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

sobre a moda




diz ele, o Gonçalo M. Tavares, e diz - aparentemente - bem, que seduzir é como um quadro que não cansa - uma espécie de promessa infinita e visual. diz que a moda entra pelos olhos, interpretação minha, que a moda existe porque os outros têm olhos. então e se o outro for cego, Gonçalo? e se for um cego a querer seduzir o outro, Gonçalo? presume-se que a moda é uma outra limitação dos cegos? e que a sedução lhes é interdita? mantenha-se a parte da promessa infinita e retire-se o visual. e é aqui que a aparência colocada entre travessas, lá em cima, entra: a moda é, sim, uma questão de aparência - tal e qual como a sedução. isto porque não acredito na sedução planeada e monitorizada, assim como não acredito na moda. a moda é uma espécie de partido político ou de religião ou de clube de futebol: uma vez vinculados às suas linhas jamais delas se sai (aqui a moda assume um ponto a mais, ou a menos, que os outros exemplos indicados - a capacidade de ser interminavelmente mutável no tempo. pelo menos aparentemente, lá está, a aparência liga com a moda mais uma vez: é que a moda vive do reviver), ainda que deixem de fazer qualquer sentido.

andar na moda, fazendo e consumindo moda, é para os que olham e não para os que vêem; andar na moda tem tudo que ver com seduzir, de facto, tapar aqui e descobrir acolá em série como se o geral fosse, e parece que é, o rosto que carrega os olhos que olham quando é no particular que estão todos os olhos que vêem. a moda e a sedução são embustes sociais: assim como quem anda na moda procura a desvirtuação do dentro pelo fora também a sedução só acontece quando sequer pensamos que estamos a seduzir. atrevo-me a dizer que seduzir é, não como um quadro que não cansa, como um campo baldio que não cansa de nos surpreender - e aqui há olhos mas também narizes e mãos e pés. e barrigas e almas. e sexos. e flores. e terra e pedras. aqui há tudo.

ou como a revisão da ortografia é que fode a língua até ao tutano

prefiro sempre pensar, e dizer e escrever, assim: acorda, ortografia! por acordar ter aquele trago de afinar - de sair da pequena morte que é o sono. está-se mesmo a ver que acordar é absolutamente o oposto de concordar pactuando com os pseudo-argumentos para a miserável amputação e violação e fustigação da língua. tendo achado um piadão ao arranjinho do Diogo Leote, decidi celebrar o português, o tal, da tradição oral - o que passa de boca em boca - com o excerto magnífico com que ele ilustrou o seu texto viradinho do avesso aos prevaricadores:

“Estamos fodidas. Estamos muito fodidas. Estamos fodidas como o caralho.
Há uma série de coisas que são um problema:
1. A tua pessoa;
2. A tua pessoa nunca estar cá;
3. Não termos sexo porque a tua pessoa nunca está cá;
4. Não termos orgasmos porque não temos sexo porque a tua pessoa nunca está cá;
5. Andarmos totalmente putas da vida porque não temos orgasmos porque não temos sexo porque a tua pessoa nunca cá está;
6. Não falarmos porque não temos as nossas conversas depois dos orgasmos que não temos porque não temos sexo porque a tua pessoa nunca está cá.”

sexta-feira, 12 de abril de 2013

dica esperta

se a um bom naco de lombo de porco assado, após o fatiares, lhe adicionares uma geleia quente de fruta (coze, por exemplo, a manga em açúcar e água mexendo até engrossar), vais dar-lhe um trago de alegria e sabor.


quinta-feira, 11 de abril de 2013

arte? arte.



não será uma barbaridade alguém pronunciar-se pela opinião pessoal, não, mas constitui barbaridade considerar a desarte da Joana Vasconcelos. não gostar cabe tanto na liberdade individual como o gostar  - já colocar em causa o conceito de arte é outra coisa. trocando por miúdos há quem considere que as rendas não são arte, assim como o barro trabalhado - em galos de barcelos ou em pilas das caldas -, as tapeçarias de arraiolos, a filigrana e por aí adiante, o folclore, o nosso, que constitui, costela de qualquer sociedade, a voz do povo. chegam, inclusive, a comparar a suposta parolice à música do Tony Carreira como se tal se afigurasse de insulto. O Tony, mesmo não sendo apreciadora mas apenas observadora dos factos, é um dos maiores artistas portugueses que movimenta massas - tanto fãs como colaboradores - dentro e fora do país; a Joana Vasconcelos é igualmente reconhecida por cá e além fronteiras. considerar que condensar o folclore, e dar-lhe uma voz maior que é vestir a modernidade da cultura popular portuguesa, e realizar arte sobre a arte é do pior que há será considerar a vergonha pelo português em sua essência (faz-me até lembrar aquelas pessoas que sentem vergonha de amar quem amam e não demonstrando negam, simplesmente por essa pessoa não caber no estereotipo que decidiram para si ou a que estão habituadas). repulsa devemos sentir por muita coisa - mas nunca pelo engrandecimento da cultura popular. a este respeito, da arte da Joana Vasconcelos, só lamento que não seja ela a usar, gastar, sujar, gretar, as próprias mãos para fazer tudo. e é só.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

a propósito de uma notícia

que raio de máquina pode entrar em uma cozinha sem ser para lavar a roupa, ou a louça, refrescar ou congelar, fazer os sólidos passarem a líquidos ou até aquecer rapidamente? é uma pergunta estúpida na modernidade, eu sei, visto que são poucos os que vêm, e fazem, da cozinha um encanto. cada vez mais a repulsa pelas cebolas e pelo peixe a amanhar é maior - será, até, uma questão de imperialismo das mãos e do cérebro relativamente aos tachos e às facas e às miudezas de perícia, um caminho interdito à inteligência. 

e as mulheres são as primeiras a saírem para a rua a reclamarem pré-cozinhados e já-confeccionados e, imagine-se, a tal máquina, o raio da máquina que se chama bimby. bimby, veja-se lá isto, o caralho da máquina chama-se bimby, podia ter sido bambi - tamanha a ternura que inspira às mãos e cérebros imperialistas de facilidade e rapidez -, mas é bimby. e é vê-las gaiteiras e orgulhosas da criada rápida e eficiente: duas colheres disto, um vaso cheio daquilo e depois quando estiver apita. uma miséria de cuspir mesmo no prato onde de seguida os vão, os resquícios da bimby,  comer. tudo se perde nessas cozinhas: perde-se a alquimia, a criatividade, o cheiro, o talento dos dedos. perde-se a magia que é transformar e recriar. perde-se, enfim, a sedução dos alimentos que querem, sim, ser seduzidos. perde-se tudo - até a vergonha de se ser incapaz de assumir que as mãos e os cérebros imperialistas de facilidade e rapidez são bimbys: uma colher certa disto e mais outra daquilo só pode mesmo resultar nisto.

valha-nos a música que é para beber até esquecer.



há que tempos

não ouvia isto



e decidi, simplesmente porque sim, substituir sempre a expressão sou toda ouvidos por sou um orelhão.

seca e dura

olha lá, a gripe aviária não anda a pôr-te os olhos em bico?

risota pegada

César das Neves saiu do armário

faladuras



de repente, aquela lembrança, aquele paranço naquele momento, aquele movimento de ir - imagino sempre o ir para trás como a rebobinagem do VHS, com os barulhos e tudo -, e ficar. e depois de sair para os moinhos se moverem, arregaçar as mangas e meter as mãos na massa. desta vez é para fazer uma torcidinha bem comprida, fôfa e crocante ao mesmo tempo, que os tempos a isso convidam: desta vez acabam-se os papos secos, qu'isso não é daqui é de lá, e fazem-se tenras regueifas húmidas e vitaminadas e a fumegar.

terça-feira, 9 de abril de 2013

apolíneo

tarde de chuva é península inteira a chorar, cantavam eles - e ainda cantam -, e bem. penso que é mesmo para isso que as canções servem: para nos remeterem para lugares ou sítios, parecem iguais mas são apenas semelhantes porque o sítio pode ficar em um lugar mas o lugar nunca tem sítio, da emoção. e é por isso que a emoção é, não apenas um reino - sequer um mundo - um universo repleto de inteirice. só me vem à cabeça chamar a este universo de apolíneo, tamanha a beleza das emoções - boas ou más, apenas emoções. acabo, inclusive, de descobrir uma definição de vida: viver é sentir emoção. ou de morte: morrer é deixar de sentir emoção. e a adrenalina? a adrenalina, prima postiça e muito afastada da emoção, é o cérebro zangado - e invejoso, o ego pastichado de mulher - a querer fazer parte do universo. 
mas o que é seu a seu dono.





segunda-feira, 8 de abril de 2013

o nome da rosa



ter a rosa, conceito universal e particular, no nome é fantástico. e é fantástico porque começa logo por levantar a célebre questão: os conceitos são reais ou apenas palavras? realismo, existência objectiva, conceitualismo, representações intelectuais, ou, pura emissão fonética, nominalismo?

Umberto Eco, no romance, relembra precisamente a problemática entre o que é essencial, existência única na realidade - e por isso mortal, passageira e transitória -, e universal enquanto conceito imortal, eterno e imutável. ora está-se mesmo a ver que no meio de tanta contradição, como teia de delícia da descoberta, o nome da rosa dado a alguém merece destaque: é que do universal para o particular apanha-se a imortalidade mortal do eterno que é passageiro e também imutável na sua essência. complicado? não, nadinha, são simplesmente assim as teias - por isso é que apenas as aranhas as sabem, e conseguem fazer.

os nomes têm sempre uma narrativa por dentro dos nossos, e aos dos outros, olhos. e é por isso que é preciso parar para pensar no que eles sempre nos contam e sugerem: navegar nos nomes é preciso.

a opinião da Olinda

há mais marés do que marinheiros, ouve-se dizer. ou que o último a rir, ri melhor. mas agora será oportuno reinventar os dizeres: há mais péssimos comentários do que comentadores. e o último - que foi primeiro - a comentar, comenta melhor.

domingo, 7 de abril de 2013

não perder



o dicionário da Idade Média, Jorge Zahar Editor. mais do que ninho de trevas, Idade Média, berço da modernidade.

e isto liga com isto.

sábado, 6 de abril de 2013

chocada, diz ela

pede-lhe que saia de casa porque quer estar, estar é zimbrar; saltar à espinha; coçar a micose das pudendas, com a namorada. mas não é assim um pedido directo nem informal nem corado - não. é daqueles pedidos mascarados de ordem, a pretexto de falta de percebas dela, de palavras mal amanhadas que soaram mal. vamos lá ver, não soaram mal pela resolução do assunto em questão - não. soaram mal por serem contornionistas e secas e vestidas do que se quer nu. e ela ficou chocada, pois claro, arranjou-se à pressa e ligou a um punhado de amigas a ver se estavam disponíveis para almoçar - não esquecer que o sábado de manhã é aquele dia em que as esposas e as mães convencionais limpam as casas e mandam os maridos arrumar as garagens ou fazer puzzles com os filhos - e não estavam. depois lá uma se afeiçoou ao choque dela e a recolheu para umas boas horas de frete - frete porque não é fácil andar de aspirador na mão ao mesmo tempo que prestar atenção. e depois, já de tarde, quando chegou a casa viu a persiana fechada e resolveu aguardar à porta, na rua, expectante por algum sinal que lhe indicasse se o momento para entrar em sua casa seria oportuno. entretanto, desde a manhã até quase ao final do dia, houve cinema forçado, visita forçada a uma amiga e desfolhar forçado de livros. houve, enfim, uma vontade enorme, imensa, de que tudo fosse como antes: como era antes de não ser dona do seu nariz. 
chocada, diz ela. ela que, afinal, sou eu.

duas versões

está um sol magnífico e hei-de sussurrar-te ao ouvido para me cheirares como um cão.
está um sol magnífico e hei-de cheirar-te como uma cadela.


sexta-feira, 5 de abril de 2013

flash romântico

o miúdo, que apreciava enquanto esperava, tinha um apito de madeira. lembrei-me, entretanto, de um pequeno filme: o menino já era um homem e, apaixonado, soprou no apito de madeira, a madeira que absorve tudo inclusivé a saliva, e enviou-lhe como presente com o seguinte bilhete:

toma-o, meu amor, em teus lábios de seda e sente-o como meu - já que está carregado de beijos.

o teste da linguagem dos excrementos e das perguntas em manada

percebermos, em um primeiro contacto, qual é a tolerância de alguém a nós é bom. muito bom: dá-nos uma espécie de bola de cristal da hora ou do dia seguinte. não é que eu não goste do mistério e da descoberta, gosto muito, mas há um pequeno teste que só as pessoas, homens ou  mulheres especiais - as que valem a pena - conseguem passar. e a isso ninguém que me aborda escapa.

quinta-feira, 4 de abril de 2013


ó Relvas, ó Relvas

demissão à vista. adiantou-se.

acontece

é um carreiro, um potencial caminho das cabras - digo potencial porque nunca lá vi uma -, de largura não mais que dois metros, pedras estendidas - e emmusgadas, palavra inventada agora - ao sol e ao que o tempo quer, onde me sento quase todos os dias aquando do passeio da deusa. e é lá, por entre formigas frenéticas e flores despenteadas e bichesas frágeis, que descanso o cansaço dos dias de doença e afazeres de enfermeira postiça e de filha legítima, lá e aqui, que desfaço tristezas e trituro amarguras. mas nem todos os dias são dias - há uns e outros que de tão pequenina me sentir a alegria não cabe no entrar. acontece. e não a forço, a alegria é livre.

mixórdia

aos cães, a maldade chega-lhes pelo nariz: quando uma pessoa é ruim, eles nem lhe chegam, ficam de longe a mirar e a pensar que vá para longe, nem um ladrar desperdiçam, como são sábios os cães. e foi uma boa opção, a de quebrar a resistência, a de aderir ao LinkedIn: trata-se, de facto, de coisa séria e respeitável e cheia de bom gosto e ainda só me deu nos nervos ao de leve, coisa pouca, o que quer dizer que veio para ficar. além disso, vê-se mesmo bem quando um concurso público possui credibilidade: os documentos são entregues em carta fechada e fornecem o respectivo comprovativo de entrega. não é como foi com os outros azeiteiros que me fizeram percorrer quatrocentos quilómetros para me excluirem, invejosos, merdosos e pestilentos, lazareto d'abrigo.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

de papo cheio aos papos a encher

apreciar como e o que as pessoas comem pode ser um exercício fascinante para depurar características da raça humana - o que, de resto, só poderá acontecer, com a devida isenção, se se tiver o estômago já forradinho.

terça-feira, 2 de abril de 2013

havia mesmo necessidade disso?

envelhecer na espera

quando ontem o amanhã é hoje

a mentira do primeiro de abril

a pedofilia de Cavaco Silva

vais deixar?

pequeno drama

chega o sol e a luz banha as janelas até as cortinas ficarem quentinhas;
chega o sol e as flores arrebitam como se lhes levantassem as saias;
chega o sol e dá vontade de as unhas serem de cor-de-rosa pintadas;
chega o sol e os engravatados sacam dos sobretudos pesados;
chega o sol e as minhas irmãs continuam a ser umas cabras.

tanta ternura merece viver

a cabeça pendente de Elva Zona

segunda-feira, 1 de abril de 2013

alfazema ou mofo

há três meses, contentamento, excluiram-me, lágrimas e senão, sem razão. ou talvez não. talvez soubessem, os deuses, que por cá havia de abrir uma gaveta para mim. ou talvez eu precise tanto dela, da gaveta, e seja por isso que decidi pensar assim. o problema é que decidir pensar em gavetas tem tanto de alfazema como de mofo.
a insónia é inimiga do dia.