domingo, 29 de abril de 2012

é couto e quero souto

nebrina mas pouco
mais do que da noite couto
porém tanto a navegar
é janela ante janela, vidas feitas por trás dela
outras tantas de fogos amenos
 por apagar
faz-lhe falta o souto
por entre vielas cuspidas
filhas da noite que esquecem o dia
a verdade do que é ser janelas
do que é ter janelas garridas

dom marrom


dom marrom, bico aguçado
em bicos de olhar pendurado
assobia
sabe bem mais do que ontem sabia
das sombras de fundo de fim de dia
códigos de vida barrados
simples
sem amanhãs, depois, pendurados

quinta-feira, 26 de abril de 2012

um mimo de mima

está bem, gosto de poesia e de romance - de embelezar tudo o que a vida tem: fazer dela rainha. e o que é que a casa mima tem de romântica? tem, precisamente, tudo aquilo que eu lhe poderia, e posso - a fantasia é um principado -,  acrescentar.

terça-feira, 24 de abril de 2012

suicídio

não conheço dor maior do que a de ouvido - e será por ela, um dia - na noite - nele, que cometerei suicídio.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

ternura

olhos que se fazem tremura, no chão, são espelhos vistos do céu, pois são, em líquidos de ternura.

sábado, 21 de abril de 2012

fodeu-se, quilhou-se

bastou um dia para me encher daquilo: caixa de email a abarrotar de notificações e eventos e nhanhanhãs. a derradeira conclusão é que não tenho, de facto, paciência para a treta do fb. a reactivação em uma mão e a desactivação em outra parece-me uma excelente acção de abril. viva a falta de pachorra e a revolta da convicção!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

bem-vindo novamente ao facebook

as vontades são espontâneas, não podem ser de outra maneira. de repente, reactivei a minha conta do facebook, pouco mexi naquilo que tem que ver com há alguns anos, percebi que percebo quase nada das ferramentas, vi que posso colocar um fundo, não sei como colocar coisas que me interessam, continuam a ser mais do que muitas as pessoas que não conheço e que me enviam convites de amizade. está bem, não vejo por que não aceitar, mas fica o aviso à navegação: sou uma calada, não bato papos inúteis, não tenho grande paciência para fotografias de gente - mas gosto de cuscar, corre-me nas veias a curiosidade e o vírus do interesse.

andar

retrato de brasão, riso em punho, moldura a cavalgar, são homens - diamante a ouro lembrados, filhos do reino de junho, calor a abraçar, prata polida, titânio suado, nevoeiro sem mistério: andar.

dicas enganosas

a propósito das dicas amigas do ambiente e da carteira, que mostraram na televisão, para limpeza da casa, em que são usadas claras em castelo para limpar molduras douradas e repolhos e sal para limpar carpetes tenho a dizer o seguinte: fica mais barato, e não há desperdício de comida, comprar uma embalagem limpa vidros que é o melhor removedor de sujidade que conheço - além de que o sal entranhado nas carpetes é quase impossível de aspirar.e o repolho massacrado cola-se ao piso. deviam começar, as senhoras das dicas, por experimentar o que sugerem, evitando assim o engano dos espectadores, antes de deixarem as sugestões milagrosas que tanta falta fazem na cozinha. a única coisa que efectivamente resulta é a passagem de limão, ou vinagre, no calcário das torneiras.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

pascer

emoldurado olhar
tom sobre tom
pascer
mónade
(pára quieto, !truão!, !chocarreiro!, não se brinca c'a saudade)

terça-feira, 17 de abril de 2012

as casas de banho não iludem

consegui, finalmente, convencer uma amiga que na noite tudo é ilusão - as luzes, os sorrisos, o brilho dos olhos - menos as casas de banho.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

arrostar é preciso. estamos cá.

vi ontem, pela primeira vez, esta publicidade e gostei mesmo muito - cativam-me os contrastes que dão sempre vontade de arrostar. e é por isso que eu mudava o slogan já, de imediato, retirando o "Portugal está a chamar. Vamos lá." substituía por arrostar é preciso. estamos cá.

domingo, 15 de abril de 2012

relações de número atómico 14

o pai de uma grande amiga é o maior cirurgião do mundo: consegue convencer, após poucos meses de convivência sexual, as namoradas que vai tendo a colocarem silicone nas mamas.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

serpente, rouxinol, cotovias, caracol


lampeira explora o lugar
docemente
assim como faz com astúcia a serpente
importa luz exalar
por lá e por aqui
qu'a vida é isto de se ver
:
corar a alma ao sol
sabão e água dos dias
a canto de rouxinol, anjos de cotovias, em cornos de caracol

quinta-feira, 12 de abril de 2012

que chatos

a insistência no assunto titanic é um revivalismo que, de facto, mete água.

fixidade

afasta-se os verdes com as mãos em silêncio
delicadeza
como quem descortina um conto de era uma vez na natureza
agarra-se o frasquinho de tampa risonha
à homem inventado
cidade
e cheira-se o aroma
 mistura de sol com chuva
ventos de tempo
fixidade

quarta-feira, 11 de abril de 2012

saudades

ai que saudades. acordei com saudades das minhas avós. a Maria Argentina, mãe do meu pai, conheci-a teria aí doze anos quando chegou do Brasil para uns dias na quinta da tia Filomena, no Douro, onde passei alguns verões. foi com ela que aprendi a fazer renda e malha e foi ela quem me deu as primeiras agulhas e os primeiros fios. em Tões, na aldeia onde se chegava em caracol depois de passar a Régua, tudo era calmo e foi lá que descobri a beleza da fonte do largo, dos tremoços secos do monte, dos passeios dos bois que madrugavam com merda colada no rabo e das gentes aperaltadas em domingo de missa. a Carolina, a avó materna, tinha-me um amor gigante: aos oito anos quando a mãe morreu e vivi com ela e com os padrinhos, os banhos que eu lhe dava eram uma festa de perguntas e de espuma. foi com ela que aprendi a fazer tranças - fascinava-me a finura e a brancura dos seus cabelos. certo dia apareceu com um presente, um dos meus preferidos até hoje, uma saia amarela que usei vezes sem conta até gastar. morreram ambas ainda eu era adolescente. ai que saudades.

terça-feira, 10 de abril de 2012

olá, gostei muito.

fascinam-me as retrosarias. e quanto mais antigas, melhor. são as fitas, e os botões, e as rendas, e os apliques, e os tecidos, e as pedras, e os brilhantes, e os saquinhos de papel onde se embrulham estas preciosidades. hoje descobri uma que tem uma voz gravada, mal se entra, que diz: olá, espero que gostes. e também eu respondi olá na entrada. e quando saí fiz questão de lhe dizer que sim, que gostei muito.

risos na voz

fim de tarde em reclamação a serviço de apoio a cliente, ouço aquela voz. pergunto novamente o que já tinha perguntado para ouvir mais, não o que ele tinha para dizer, da voz. uma coisa é gostarmos da voz de alguém que conhecemos e gostamos - gostar de alguém e também da voz; outra coisa é gostar da voz sem conhecer o que quer que seja de alguém - gostar da voz sem gostar de alguém - como se a voz fosse, e é, alguém. interrompo-o e pergunto-lhe o que está ali a fazer. diz-me não estar a perceber. explico que deveria estar na rádio, incansavelmente, a dançar palavras. risos. pergunta se pode ajudar em mais alguma questão e digo que sim: pergunto se vive perto e, questionando-me porquê, diz-me que não. porque se vivesse tinha mesmo de vir lanchar comigo. mais risos, risos na voz.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

rabiças

rabiças de uvas desfeitas são como bois de arado no dorso: em água ou em terra traduzem o momento, quadro de cor em tela , jornada de sustento.

sábado, 7 de abril de 2012

lustre, lustre, lustre

ai! lustre de lustre
em lustre mais uma vez
conta-se a que derrama raízes e fios d'ouro vivos
e depois a que carrega o afastar da 'scuridão
ai!, lustre, por fim,
o conjunto, tripé de lustrina,
beleza em imensidão
(em imensidão fina)

sexta-feira, 6 de abril de 2012

a favor

passou, por mim, um carro da GNR e, olhares cruzados, lembrei-me da Catarina Eufémia, ah ceifeira de ovários caseiros e bem alimentados, mas este tipo de flashes ainda levará o povo a dizer que sou comunista, comunista filiada. penso, entretanto, pelo caminho, que para ser uma revolucionária como ela eu teria de me sentir oprimida e reagir contra. mas eu sou uma rebelde, que é bem diferente, vivo fora da bolha, e todas as minhas reacções são a favor. a favor da minha alma. é isso.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

quarta-feira, 4 de abril de 2012

(vagina triste a dela)

ouvi dizer que a ginecologista lhe receitou pomada e outras coisas para uma inflamação na vagina . disse-lhe que sei de outra cura porque uma vez, talvez causada por um qualquer insecto que terá gostado das minhas cuequinhas enquanto secavam ao sol, experimentei isto: arranjei aloe vera natural - por aqui é fácil arranjar, há em qualquer jardim -, lavei muito bem. depois aparei-lhe os picos dos lados e cortei-lhe as pontas e, sempre com uma tesoura, recortei a peça em rectângulos finos e do tamanho do dedo mindinho. (apenas uma pequena observação muito importante: só se pode recortar mesmo antes de usar senão não faz efeito porque seca todo aquele molho que vai largando) antes de deitar, introduzi três ou quatro rectângulos na vagina e dormi tranquilamente. o que aconteceu foi que durante a pequena morte toda a seiva maravilhosa da planta passou para mim. e de manhã, naturalmente, quando fui libertar as primeiras àguas saíram os pequenos rectângulos, como que chupados pela vagina, incrivelmente secos. e bastou repetir duas a três noites para repor o vagilíbrio.

não acreditou, riu, e prefere andar a colocar pomadas e outras artificialidades. está bem - não sabe, como eu sei, que as vaginas devoram, porque adoram, o molho de aloe vera. talvez façam, até, de propósito para inflamarem só para poderem chupar os rectângulos como se fossem gomas frescas.

(vagina triste a dela)

terça-feira, 3 de abril de 2012

olhos de ficar

pardos são os olhos
veranistas, obcónicos, que vêem sem cor
as águas fortes como se paradas
as cúpulas como se cimeiras de dor
são pardos os olhos, são,
que atentam o meu olhar
pracejam não praziam
trambicam por aí o ficar
pardos são os olhos, são,
debatidura, detruncar

domingo, 1 de abril de 2012

pormenores gigantes

depois de descobrir exactamente que nome dar à enorme fatia folhada, maravilhosa, cujo recheio se torna quase - quase - indecifrável ao olhar e paladar, blimunda, descobri também que não sabiam, nem sabem, nem vão procurar saber, o que é ser blimunda e, depois, blimunda renovada.

(até dá vontade de dizer: sim, é blimunda. mais sete vezes vão todos para a puta que vos pariu)