quinta-feira, 30 de junho de 2011

promessa cumprida

algodão doce, feito à medida do céu, ignora o tempo dos Homens e do futuro: o céu só disse que se faria doce: e cumpriu com o que prometeu.

se assim é, tem de dar para tudo

os Homens falam de Deus a torto e a direito porque, e apenas, fizeram-no à sua semelhança. ora não pode ser pecador aquele que meter Deus na diarreia ou num simples arroto.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

eurekinhã

fiz uma descoberta, e toda a descoberta é poesia: a melhor forma de limpar cagadelas das moscas é cuspir para o pano imediatamente antes de o usar para limpar. vou esvaziar um frasco de detergente, ineficiente e ineficaz, e cuspir até ficar cheio. depois, é só usar e salivar as recargas.

apetites

ando com vontade de navegar numa piroga. e de ter lições de clavicórdio também.

fisiologia versus mentira

quando as gentes mentem com convicção quase que se tornam verdadeiras - quase. mas apenas porque só elas próprias sabem que não são a verdade. e há maior mentira do que a que, em si, não é verdade? ser, portanto, uma verdadeira mentira é o único triunfo de quem mente verdadeiramente. na verdade, a mentira, essa mentira convicta que tanta gente atrai, é uma sombra esquizofrénica e fraca que, de tão fraca que é, se torna no ponto forte dos portadores de mentiras convictas. regra geral, estes baseiam-se na verdade de alguém verdadeiro para tomarem a verdade, que não é sua, como sua - e passam a fazer da verdade, da única, porque a verdade é exclusiva e uma só, a sua bandeira.

é verdade: não faço sempre questão de me esquecer de mentir porque a verdade não é consciente - a verdade é como, e é tão lógico como a irracionalidade, o respirar fisiológico.

terça-feira, 28 de junho de 2011

lição de vida

quando o céu está cinzento, o verde não sobressai tanto. e é por isso que há sol encoberto: para lembrar as árvores e as ervas e as flores que a bazófia tem rédea curta.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

amor & amor & amor

ainda há quem pense, e bem, sobre o amor. e só pensa bem quem, bem, o sente ou já sentiu.

(só não vale amargá-lo - o amor não pode ser condenado porque só o é se for inocente)

double circuito

já dizia a minha avó, é o que se costuma dizer, sem nunca ter ouvido a minha, não dizia mas eu faria com que dissesse, porque a sabedoria vem de longe, pelo menos bem mais longe do que do instante, que é curto, que um curto-circuito nunca vem só.

domingo, 26 de junho de 2011

pois, está bem, por acaso, vão ter muita e boa sorte

gosto tanto de calor abrasador como de gelados - se chupar um por ano já é muito. e, depois, tanto um como outro têm a mania que me cativam, voz grossa e rouca, quando me dizem: até te derreto. pois, está bem, por acaso, vão ter muita e boa sorte.

sábado, 25 de junho de 2011

sexta-feira, 24 de junho de 2011

o ser foguete e brasileira de dicionário

acabar com os foguetes é uma medida urgente a ser tomada. os foguetes causam danos: os foguetes são barulhentos, cheiram mal e muito perigosos e nem por isso fazem com que se deixe de correr a foguetes; quem gosta de foguetes só pode mesmo ser como um foguete - artificial. é que quando há trovões o povo recolhe-se, tem medo, assusta-se com a naturalidade, com a singeleza e, no entanto, teve de inventar uma cópia reles dos trovões, uma cópia tingida e, ainda assim, sem viveza. porquê que quando sentem vontade de foguetar não ficam em casa e desfrutam dos próprios gases? há festa maior do que foguetar em privado junto dos que mais amam? façam concursos, experimentem odores, façam os gases em pino. divirtam-se a valer e mandem os foguetes atirar-se ao rio. já pensaram que se não houver quem vá para a rua as pirotecnias não dão o peido? se é uma questão de manutenção da empregabilidade nas pirotecnias não se preocupem -  elas sobrevivem para a indústria extractiva e para o nonel. faz assim: quando tiveres vontade de foguetes com gente, ligas a um amigo ou a um parente ou ao namorado e fazes o teu próprio show. e se é um barão que te falta não desanimes - há sempre um vão de escada à espera que libertes os foguetes que vivem dentro de ti.


(tenta ser brasileira de dicionário, de vez em quando - não é defeito, é ser foguete)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

pássaros de latão

são semelhanças de asas, como se boar fosse voar, imitações dos homens que não sabem  no céu andar - fazem pássaros de latão, como se deus artesão, com voo na mão: sonhar.

quero ser-me em bruto achada

não me apetece ir, não sinto motivação, à apresentação do meu próprio conto e não dormi a noite toda a pensar nisso: não fui eu quem o escreveu - foi ele que me escreveu a mim. e venceu. simplesmente não quero ver o meu ego feliz porque não preciso de ego - o ego é como se fosse outro, um outro vaidoso e prepotente, que, a viver dentro de nós, na mesma casa e numa outra assoalhada, nos lapida. e eu não quero ser lapidada. eu quero ser, continuar a ser, só eu. quero ser-me em bruto achada.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

médicas em folga permanente

não há hipótese: pela minha experiência os médicos são mais competentes do que as médicas - pelo menos comigo. são simpáticos, pacientes, respondem a tudo o que lhes pergunto e são dóceis. as médicas são, talvez em comum tenham um complexo de superioridade, cabronas. por mim, estão sempre dispensadas para gozarem a sua pseudo-superioridade à vontade. e fazerem bom proveito.

queralho?

o povo é sádico: fez da cabeça do S. João, trazida pela Rainha, que nem sequer viveu no Porto, uma festa, regada a sardinhas e vinho, para ficar. talvez daqui a meia dúzia de séculos a folia viva de outras cabeças que, no Palácio, andam a rolar, e o santo a querer alho seja o S. Bento.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Mexia? mexe. sempre.

"Porquê «mudança» e não «aceitação»? A mudança é em geral uma forma de logro. E a aceitação é talvez uma forma de felicidade."

Pedro Mexia

relva e luas

o contacto com a relva pode, muito mais do que a apreciação dos vivos pequenos (está bem, pequenininhos), resultar na apreciação dos olhos, dos teus. se te colocares de bunda para o sol, livro em sossego, e os óculos na ponta do nariz vais, entre um arranjo e outro, alcançar aquele ponto em que o efeito é de lupa. e o que vês é o reflexo dos teus olhos e da pele circundante e das pestanas - vês tudo ao pormenor e aumentado. é bem interessante: contar quantas pestanas, a sua direcção e espaços; a textura da pele e o brilho dos olhos. eu sabia que tenho os olhos muito brilhantes mas hoje tive a real noção de possuir duas luas. até merecem uma música.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

boa noite, influências africanas e caribenhas

coito e tal

ouve-se daqui, toques de ele e de ela - tão bom tão bom tão bom -, quando o mar e a rocha se amam: são os corações a pulsar que, em uníssono, sussurram espumar.

de perto se faz mesmo perto

entre um piu, piu, piu e uma onda a distância é mesmo curta - é a de misturar areia com árvore.

gentes-penedo

há gentes que são, efectivamente, como um penedo: quando uma mulher não é o feminino no seu pior, ah porque não tenho força e tal, não posso, não consigo, sou frágil, posso partir uma unha, é imediatamente tratada como um homem - o que se presume que homens-penedo e mulheres-penedo vivem colados a uma lista de potencialidades, perfeitamente ridícula, a que estão aptos e da qual, dali, não saem.

(eu havia de treinar todos os dias a carregar um touro às costas - no dia em que assumisse que, por ser mulher, não tenho força)

domingo, 19 de junho de 2011

respostas simples

 perguntaram-se o que penso de o mundo acabar. se o mundo acabar, acabou - não vejo problema algum nisso porque também já não estarei cá. e, depois, se tenho medo de morrer. se morrer, morri - terei a eternidade por minha conta para me debruçar sobre a morte.

sábado, 18 de junho de 2011

sorriso em flor

não sei o nome das flores. sei que as olhei e as fixei: aveludadas e fartas de pétalas e, todas juntas, fazem um efeito almofadinha recortada onde dá vontade de roçar a ponta das orelhas. voltei tudo para trás e fui buscá-las. quando cheguei, despi-as dos vasos apertados e molhei-as. sorriram-me. sorriram-me tanto que a cor ficou mais forte, mais fúcsia. e, depois, escolhi um vaso preto brilhante a ser penetrado pelas raizes das belas. delas. e aconteceu: sorriram em simultâneo e não voltaram a ser os mesmos - nem o cimo da mesa onde vivem, nem a sala, nem a casa. eu também sorrio mais: tenho mais um motivo para sorrir. cá em casa, há rugas de expressão.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

quinta-feira, 16 de junho de 2011

porquê que não queres ser marinheiro?

se há mais marés do que marinheiros porquê que cerca de um quarto dos estudantes portugueses continua a optar pelos cursos de gestão e de engenharia em vez de ir para a marinha?

quarta-feira, 15 de junho de 2011

luadeira

em cornos de croissant, lua feiticeira, minga nua. e não, não é erro a nudez fazer minguar: a lua crescente gosta muito de brincar.

remédio santo e veloz

a melhor forma de espantar, quando se é obrigada a parar numa operação STOP, a polícia é dizer que abro, com muito gosto, a mala mas terá de ser um deles a abri-la em três tempos e um outro a segurar na porta para poder verificar a existência do triângulo.

terça-feira, 14 de junho de 2011

encantamento

ai como é sensual, sentidos em espiral, o tempo a ficar no branco  - como se cheiro de chuva, com relva, nos dedos: em encantamento ouvem-se segredos.

eu sei bem a diferença, e tu?




a diferença entre um  inteligente e um  pseudo - inteligente reside na inteligência: enquanto o pseudo-inteligente anda munido, cheiinho de caganço, das inteligências dos outros e as converte na, supostamente, sua - o verdadeiro inteligente vê os outros converterem, como deve ser o fluxo do conhecimento, como processo de ciclo virtuoso, a sua inteligência na deles.

(é basicamente o mesmo que ser vaca natural e ser vaca transgénica - esta última teima em pingar e deixar a sua marca postiça, elaboradíssima, nos outros)

segunda-feira, 13 de junho de 2011

os homens que lavam a louça têm uma vida sexual mais activa?

ouvi a pergunta na televisão e fiquei a pensar de onde virá tal associação. ora esta questão só poderá surgir de um dos seguintes pressupostos: os homens que fazem mais sexo têm mais vontade de lavar a louça ou lavar a louça potencia o apetite sexual? dependerá do detergente que é usado ou este não tem peso algum? dependerá da parceira ou do parceiro ou este não terá, igualmente, peso? isso quer dizer que um ajudante de cozinha de hotel poderá passar metade do seu turno a foder hóspedes? ou que um marido, após um dia de trabalho, que lava a louça após o jantar passou o dia a foder com outras?  - ou que está a mostrar, à sua mulher, de forma indelével, que quer ter uma noite de sexo? quererá também significar que quando a louça fica mal lavada o homem não presta na cama? e quando é que um homem não presta na cama - quando arrota ou quando precisa de palmadas para arrotar? - e isso terá que ver com os restos que rapa do tacho? e se partir um prato, quer dizer que anda com cãibras?

estou confusa, que é isto, como podem os Mêncios do século vinte e um não serem curiosos como eu?

domingo, 12 de junho de 2011

chama

zelo vigilante desde a base até ao fundo: importa manter a chama - a que chama do eu do mundo.

um nojo de luxo

não percebo o fascínio das gentes por piscinas - elas são uma pocinha de águas, onde os corpos carregados de lixo se lavam, mornas paradas: uma banheira, de banhos, colectiva. que nojo.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

como te amo, Sinhã

ontem descobri algo novo que pode fazer-se quando se está fechada dentro de um carro parado que não pode ir para lado algum: pegar num lápis preto, riscos aleatórios e sem direcção, olhos fechados em movimentos abertos, ora precisão ora falta dela, e pintar a cara toda. abrir os olhos e olhar o pequeno espelho; olhar para fora do carro e ver os olhares dos outros e perceber que a vida, a minha, é mesmo isto - pintar, riscar, acrescentar, a cada dia, uma linha incerta traçada de certeza que é no meu espelho - e não nos olhares dos outros - que vivo. e, depois, arranjar uma forma, a minha forma, à medida de mim, de limpar a cara: superar, com criatividade, a falta de recursos da hora certa no sítio certo para ter a minha pele, a minha pele, as cortinas de cetim das janelas do local onde vivo, limpinha.

(serviu bem usar lenços e baton em creme para, pedaço a pedaço, remover a experiência. e quando dei conta, o carro já estava a andar. sorrisos de orgulho de mim. muitos.)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

canas de vida

águas fortes, que paradas não ficam, correm - vão, as conchas e as pedras e os peixes, embalar: para que servem as pontes, senão para serem canas que levam ao pescar?

terça-feira, 7 de junho de 2011

pedras celestes

vitrais que são anais do tempo, da glória, pedaços de luz achados sem mestre, memórias de um, de todos: pedras esculpidas da abóbada celeste.

espirrar, ventar, solar, orvalhar

muito eu gosto quando ponho um pé fora da cama e, logo a seguir, um espirro fora do âmago - isso quer dizer, apenas, que está sol e vento fresquinho. e é quando o vento bate assim, que os aromas se alastram e as flores deixam fugir as saias e deixam que ele as leve para onde quer. depois, envergonhadas e nuas, ficam a aguardar que o sol,  mas só porque as ama decom verdade, se ponha nelas.

(ou não é o orvalho da manhã o escorrer dos liquidos felizes delas?)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

naturitários

natureza, solidão: ser só não é ser solitário: sós estão os infelizes, perdidos num mar de gente; os solitários são feitos de alegria - são natureza paciente.

mamiência

ora se mostrar sapiência num trabalho inibe um colega de querer ter-me como colaboradora, com medo de não brilhar, será que mostrar uma mama seria, para ele, meio trabalho andado?

(ai que risota: toma lá um manguito esperto para ficares a sonhar com elas arrepiadinhas, balastreiro)

domingo, 5 de junho de 2011

pois: sofrimento, não.

pois, pois claro, que foi na mudança que os portugueses votaram - não foi no cromo.

(quererá isso dizer que os que não votaram quiseram mostrar, de forma equivocamente metafórica, que o país não precisava de sofrer alterações?)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

pedras ao alto

e em pintura original, aguarela de civilização, os brancos contornam as pedras, pinceladas de convicção: frias e duras são elas - borratado está o coração.

parágrafo à pombarreia

não é que eu tenha alguma coisa contra a merda nem contra pombas  mas, atendendo ao facto da merda de pombas ser um veículo incrível de enfermidades, gostava de dizer à puta da pomba que caga sempre no mesmo sítio, no meu terraço, que cague uns metros mais ao lado e, desta feita, cagará nas flores e nas árvores e até na cabeça de algum esquilinho que vá a passar, que cague na natureza e deixe o cimento em paz, com certeza a ela não lhe fará diferença, a natureza agradece, e eu, eu, não tenho de a mandar para a puta que a pariu por mandar pombarreia para a língua da minha menina. obrigada.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

amor, electrodomésticos e vómito

nunca percebi a coisa de se comprar coisas às prestações com juros - principalmente porque essas coisas que se compram raramente são coisas importantes e de primeira necessidade: são coisas, coisices, que o povo quer, porque quer, ter. são mentalidades. ou melhor, são materialidades. de certeza que no amor o povo não pensa assim: dar e receber a cada dia com juros, por ser importante e valiosíssimo, por ser algo vitalício e, por isso, arduo. pensando bem, as gentes estão para o amor como estão para os plasmas: compram em prestações com juros só para poderem usar, até o novo modelo sair, o comando de 69 canais. depois compram outro e, fodidos, aliam os dois créditos só para poderem dizer que têm plasma, plasma que lhes faz companhia à distância de um sofá. e, depois, perante o plasma, estabelece-se uma indiferença cortante - mas só porque um amigo fala muito no novo frigorífico que faz leite fresco todos os dias. é: o amor das gentes (chama-lhe amor, chama; chama-lhes gente, chama), tem muito de electrodomésticos. só que, neste caso, o povo compra-o a pronto, com manual de instruções e com garantia de dois anos - é o regime consumista ideal de uma sociedade perfeita. e o comando é, não meo, teo.

(vou vomitar e já volto)